A mãe surda
Diário da Surdez número 70
Eu sou a mãe surda. Aquela que vai dormir rezando para que não haja nenhum incêndio e para que ninguém toque a campainha de madrugada. Não fico sabendo das tempestades com trovões assustadores depois que pego no sono, o que não deixa de ser engraçado quando me deparo com as caras fechadas de quem dormiu mal por causa do barulho. Quando invadiram o edifício da frente às 2h, veio BOPE, ambulâncias, viaturas policiais com sirene ligada, jornalistas de todas as emissoras de TV - e só fiquei sabendo no dia seguinte, pelas redes sociais. Barulhos suspeitos ou estranhos à noite nunca foram uma questão, já que não os escuto. O problema é quando preciso escutar e sou obrigada a dormir de implantes, porque o cérebro desliga e o sono não vem. O pinga-pinga do ar condicionado do vizinho do andar de cima na minha janela enlouquece mais que o zumbido.
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