O ronco do namastê
Quando a sessão de Sound Healing vira uma orquesta de roncos desagradáveis
No sábado fui a uma sessão de Sound Healing. Cheguei lá animadíssima, precisando relaxar e ansiosa para repetir a inesquecível sensação de alma flutuando em cima do corpo da última vez. Lugar novo, professor diferente e pessoas que eu nunca havia visto antes. O ambiente era bem grande, com o pé direito alto e estava lotado.
Virgínia - minha comadre fono que foi comigo - escolheu estrategicamente os nossos lugares, pertinho dos gongos. Um homem aparentando uns cinquenta e poucos anos se sentou ao meu lado. Quieto, concentrado, em posição de lótus. Não se comoveu quando sorri e levantei as sobrancelhas para ele dando “oi” em silêncio mas beleza, eu não estava lá para fazer amigos mesmo.
A sessão começou, e não sei se foram os hormônios perturbados do climatério, mas o relaxamento não veio fácil. Pus a venda nos olhos, estiquei bem o corpo, cobri as pernas com o cobertor e ajeitei a cabeça no travesseirinho. A voz e o sotaque do professor - acho que era argentino - começaram a me dar nos nervos. Frases longas com instruções. Pausa. Outra frase longa. Pausa. Mais uma. De olhos fechados, eu revirava os olhos, rsrs.
Eis que o homem parou de falar e meu corpo finalmente começou a dar sinais de relaxamento. É agora que me transporto para outra dimensão, pensei. Meu cérebro ficou na espera do tambor oceânico e das taças tibetanas, mas ele explicou qu seria uma ‘cerimônia diferente’. A gente planeja e Deus ri, já dizia o provérbio.
Não sei vocês, mas o meu cérebro fica excitado quando estou no escuro usando implante coclear. É como se ele entrasse no modo ‘perigo’ e me desse um cutucão a cada som de 10 decibéis que aparece - é por isso que sofro quando o Luciano viaja e tenho que dormir ouvindo, porque simplesmente não durmo. Alguém respirava atrás de mim, a mente voltava a sambar. A meia do assistente do professor roçava o chão, a mente dava pinotes.
Eis que o que eu mais temia aconteceu: o vizinho namastê começou a roncar bem na hora em que eu tinha conseguido ir pra outra dimensão. Esperei o professor cumprir o prometido no início do banho sonoro: “Se algum de vocês começar a roncar eu gentilmente colocarei minha mão sobre o seu ombro para que acorde”. Fiquei me perguntando se ele e os assistentes eram surdos, porque não é possível que só eu estivesse escutando aquele som monstruoso e desagradável. Expectativa: amor ao próximo. Realidade: planejamento de como dar um golpe de karatê no namastê roncador.
Quando a sessão se aproximava do fim, começaram as instruções de despertar suave. Em vez de vibrações de gongos e delicados instrumentos musicais, a única vibração que eu percebia na sala era a da sinfonia dos roncos que emanava dos quatro cantos em diferentes intensidades e decibéis.
E minha defesa, devo dizer que meu guia espiritual me segurou para não cutucar o vizinho e pedir que me fizesse um pix dos R$180 que foram pelo ralo por culpa da britadeira que ele tem na garganta.
OM MANI PADME HUM.
Bjs,
Paula



😂😂😂😂😂 me fizeste com esse relato rir muito. Mais acho que valeu a pena. Mais uma experiência para um surdo que ouve .