Vê se cresce!
Conselho sobre surdez n.18
Acabo de assistir a um vídeo de um casal que adoro, Tony e Sage Robbins, juntos há décadas. Sage conta que eles assumiram um compromisso muito bonito: o comprometimento total com as próprias questões e sofrimentos. Em bom português, isso significa assumir a sua responsabilidade como adulto, ou seja, entender, de uma vez por todas, que os outros não têm qualquer obrigação com a sua felicidade. Pois é, o trabalho pesado é seu. Nota mental: como eu queria que alguém tivesse me dito isso quando eu tinha 18 anos...
Não é tarefa da sua mãe te fazer feliz. Nem do seu marido, muito menos do seu filho, do seu irmão ou daquele melhor amigo de infância. A tarefa é sua e, tal qual a surdez, é pessoal e intransferível. Em ambos os casos - na surdez e nos relacionamentos íntimos - é gostosinho achar que dá para delegar a responsabilidade. A gente se fecha, foge, evita, supõe, cria narrativas fantasiosas na própria cabeça e todo tipo de desculpa esfarrapada para não enfrentar os problemas. A falta de comunicação, as expectativas irreais e as projeções malucas que fazemos (consciente ou inconscientemente) não só atrasam a nossa reabilitação auditiva como também destroem os nossos relacionamentos.
Apesar de ter me casado aos 32 anos, hoje sei que eu tinha pouca maturidade emocional naquela época. Após uma vida varrendo sujeira para debaixo do tapete e sem saber me comunicar e verbalizar minhas vontades e limites, foi a convivência com o meu marido que me ensinou que eu já tinha passado da idade de evitar conversas difíceis. Eu era uma adulta, e precisava agir como tal. A memória mais marcante foi de um voo que pegamos juntos. A comissária de bordo me perguntou alguma coisa em inglês e eu olhei para ele com cara de cachorrinho recém-nascido e falei: “Responde pra mim”. Luciano me olhou de cima a baixo e disse, bem sereno: “Você sabe falar inglês. Responda você!”. Talvez ele não saiba, mas a atitude “vê se cresce” daquele momento foi transformadora, porque senti uma vergonha profunda da minha infantilidade. Se o meu marido tivesse sido fofinho e condescendente fazendo por mim algo que eu poderia fazer sozinha, não sei quantos anos mais levaria até parar de usar a surdez para escapar do que não queria fazer. A bola estava comigo.
A surdez me ensinou que evitar conflito não resolve nada e que fugir daquilo que nos compete fazer só adia o inevitável. Em algum momento, você precisa assumir responsabilidade, agir com maturidade e parar de usar qualquer desculpa — inclusive a perda auditiva — como proteção ou esconderijo.
Paula Pfeifer




Muito esclarecedor, obrigado
por nos confidenciar esse episódio.